Tecnologia

Como a inteligência artificial está mudando o agro em Dourados e no Mato Grosso do Sul

Parceria do Estado com o Google, pesquisas da Embrapa e projetos com jovens agricultores mostram o avanço da tecnologia no campo

Dourados, um dos maiores polos agrícolas do Centro-Oeste brasileiro, está no centro de um movimento que vem redesenhando a forma como o agronegócio sul-mato-grossense usa tecnologia. Em julho, o Governo de Mato Grosso do Sul firmou um memorando de entendimento com o Google para desenvolver inteligência artificial aplicada à agricultura digital, à educação e à eficiência governamental. A novidade se soma a um trabalho que já acontece há décadas na própria Dourados, sede da Embrapa Agropecuária Oeste, e a iniciativas mais recentes que levam inteligência artificial e biotecnologia até jovens agricultores familiares da região. Para quem vive do campo, a dúvida que fica é como essas tecnologias, muitas vezes associadas a grandes propriedades, podem chegar também à realidade de pequenos e médios produtores.

Governo de MS fecha parceria com o Google para levar IA ao campo

O acordo entre o Governo do Estado e o Google LLC foi assinado em São Paulo pelo secretário de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação, Jaime Verruck, e pelo governador Eduardo Riedel. O memorando estabelece bases para futuras parcerias e para a adoção de ferramentas da empresa em áreas como inteligência artificial, agricultura digital, infraestrutura de computação em nuvem, educação e eficiência da gestão pública. Segundo o secretário, o uso de ferramentas avançadas de inteligência artificial deve permitir integrar dados, otimizar modelos produtivos, fortalecer práticas sustentáveis e ampliar a competitividade do campo sul-mato-grossense.

Na prática, esse tipo de cooperação tende a abrir caminho para projetos de análise territorial, manejo de solos, monitoramento de lavouras e apoio à pecuária de precisão, áreas em que o volume de dados gerados no campo costuma ser maior do que a capacidade de análise manual dos produtores. Ainda não há cronograma detalhado de quando esses projetos chegarão a municípios específicos, mas a expectativa do governo estadual é que iniciativas de inovação de interesse público comecem a ser estruturadas a partir do memorando assinado. Como Dourados concentra parte importante da pesquisa agropecuária do Estado, a cidade tende a estar entre as beneficiadas por qualquer projeto de dados aplicados ao agronegócio regional.

Dourados, sede histórica de pesquisa que agora abraça a inteligência artificial

Fundada em 13 de junho de 1975, a Embrapa Agropecuária Oeste tem sede na BR 163, km 253,6, em Dourados, e é uma das 43 unidades da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária vinculadas ao Ministério da Agricultura e Pecuária. A unidade conta com área de campo experimental próprio e uma estrutura de laboratórios voltada a estudos de solo, fitossanidade e resíduos ambientais, servindo como referência técnica para produtores de toda a região. É justamente nesse tipo de estrutura que tecnologias como sensoriamento remoto, drones e modelos de inteligência artificial vêm sendo incorporadas às pesquisas, complementando o trabalho de campo tradicional.

Esse histórico de pesquisa ajuda a explicar por que Dourados também sedia eventos técnicos voltados à modernização do agronegócio, como o Simpósio de Agricultura, promovido em parceria entre o Grupo Plantio na Palha, a própria Embrapa Agropecuária Oeste e o Sindicato Rural de Dourados. Iniciativas como essa reúnem pesquisadores, produtores e técnicos agrícolas para discutir, entre outros temas, como ferramentas de agricultura de precisão e inteligência artificial podem ser aplicadas na rotina das propriedades da região, reforçando o papel da cidade como referência técnica dentro do Estado.

Novas gerações de agricultores aprendem a usar a tecnologia

Além da pesquisa institucional, projetos mais recentes têm levado inteligência artificial e biotecnologia diretamente a agricultores familiares. Um exemplo é o Hub de Educação e Inovação Rural, desenvolvido pela Universidade Federal da Grande Dourados em parceria com o Governo de Mato Grosso do Sul, que já atua no Assentamento Nova Itamarati, em Ponta Porã. Segundo a coordenadora do projeto, a pesquisadora Juliana Carrijo, o trabalho começou ouvindo as famílias da região para entender os principais desafios locais antes de definir as ações do programa, alinhando produção de alimentos, sustentabilidade e a realidade de quem vive do assentamento.

Essa experiência é descrita como parte de uma mudança mais ampla no agronegócio do Estado, que passou a incorporar tecnologias além da mecanização das lavouras, como bioinsumos, biotecnologia e agricultura de precisão. A estimativa é de que o mercado de biotecnologia movimente cerca de R$ 25 bilhões em Mato Grosso do Sul até 2030, o que reforça o interesse do poder público e de universidades em formar mão de obra qualificada já nas próximas safras. Eventos como o Inova Agro, promovido pelo Senar de Mato Grosso do Sul em Campo Grande, seguem essa mesma linha, aproximando produtores, startups e pesquisadores de soluções voltadas à agricultura e à pecuária.

O conjunto dessas iniciativas mostra que a inteligência artificial no campo sul-mato-grossense não se resume a um anúncio isolado de parceria com uma grande empresa de tecnologia. Em Dourados, ela se apoia em décadas de pesquisa acumulada pela Embrapa, em eventos técnicos que já fazem parte do calendário do setor e em projetos que buscam formar desde já a próxima geração de agricultores. Para o produtor da região, o desafio que se coloca daqui para frente é acompanhar de perto quais dessas ferramentas chegarão de forma acessível às propriedades de menor porte, e não apenas às grandes operações que costumam sair na frente na adoção de novas tecnologias.

Fontes consultadas:

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